Nos dias de hoje existe uma sensação coletiva de que as pessoas são menos gentis e há menos confiança nas ruas. Isso leva a uma ideia pessimista que o teórico social Jonathan Zittrain tenta desmentir. Para isso ele utiliza três exemplos de iniciativas que surgiram junto com a internet e provam que ainda há espaço para gentileza, curiosidade e confiança no mundo de hoje.
O primeiro exemplo é a própria internet. Criada por jovens estudantes sem nenhuma verba para grandes pesquisas ou investimentos, a rede global ganhou força exatamente pelo que poderia ser o fracasso de qualquer iniciativa: ela não tinha a obrigação de gerar dinheiro.
Foi dessa forma, sem plano de negócio nem CEO, a maior revolução tecnológica do século foi criada por pessoas que queriam fazer algo divertido - sem a expectativa de ficarem ricos e sem ninguém lhes pressionando para que o fizessem.
Na opinião do especialista, o segredo para o sucesso da internet está justamente no fato dela ser movimentada por pessoas que não possuem interesses individuais, apenas contribuem com o seu crescimento pensando em um bem coletivo.
"Esse é um sistema que se baseia em gentileza e confiança, o que também a torna muito delicada e vulnerável, diz Zittrain. "Em algumas raras e críticas instâncias, uma única mentira contada por uma entidade nessa colméia pode causar grandes problemas".
Ele cita então o caso do governo do Paquistão, que bloqueou o acesso dos seus cidadão ao site YouTube. O problema é que o bloqueio afetou toda a rede e em questões de minutos todo os internautas do planeta estava impedidos de acessar ao site. Apesar de ser gerido por uma das empresas mais poderosas do mundo, não havia nada que o YouTube ou o Google pudessem fazer.
Foi então que um grupo de operadores de rede se reuniu em um site para debater como encontrar o problema e converter a situação. Dentro de duas horas eles conseguiram colocar o YouTube novamente no ar – sem cobrar nada por isso.
"É como se sua casa pegasse fogo. A má notícia é que não existe uma brigada de incêndio. A boa notícia é que pessoas aleatórias aparecem do nada, apagam o fogo e desaparecem sem esperar recompensa ou agradecimento", diz.
Outro exemplo de bondade digital apresentado pelo teórico é a Wikipédia. Apesar de parecer uma ideia absurda, a enciclopédia digital aberta é um fenômeno mundial justamente pela colaboração e participação espontânea de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo e dispostas a contribuir com a causa.
"É essa fina linha 'geek' que mantém ela funcionando. Não porque seja um emprego, não porque seja uma carreira, mas porque é um chamado. Trata-se de algo que eles se sentem compelidos a fazer porque eles se importam", defende.
O fenômeno se encaixa em uma descoberta feita por um engenheiro de tráfico holandês que percebeu que se retirassem algumas placas de sinalização das ruas era possível conseguir um ambiente mais segundo, onde as pessoas se comportam e são mais responsáveis uns com os outros.
Isso demonstra o forte respeito e código ético que rege o universo digital. Um blog que exibia uma fotografia engraçada de uma garota retirou a imagem do ar após o seu pedido - simples assim. "Ao que parece alguém estava tripudiando aqui e escreveu para o cara sarcástico que publica o site, não com uma ameaça judicial ou uma oferta em dinheiro, mas apenas disse, 'ei, você se importaria?’”.
O terceiro e último exemplo é o ato da carona. Depois de quase se extinta, a carona está de volta graças a sites que promovem o encontro de pessoas com o mesmo itinerário. Essa confiança mútua também é vista em iniciativas como o CouchSurfing.
"Quando você reformula, reenquadra, quando você se libera do conjunto de velhas perspectivas de um projeto falido que já teve seus bons dias, mas que agora, por alguma razão, está liquidado, você pode de fato reconfigurar o tipo de gentileza e compartilhamento humano que algo como essas iniciativas podem representar”, conclui.