
O Fundo Multilateral de Investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Fomim/BID), o Sebrae, a Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), além de outros parceiros, lançaram no dia 7 de dezembro o projeto Estrombo. Por meio de uma gestão compartilhada, essas instituições visam fomentar a indústria da música do estado do Rio de Janeiro e criar novos canais de distribuição na internet. Até o Facebook assinou uma carta de compromissos se disponibilizando a apoiar o projeto.
A ideia é possibilitar, a partir de 2011, que pequenas gravadoras e artistas independentes tenham acesso a serviços de consultoria em gestão de negócios e cursos de capacitação. Como esclarece Heliana Marinho, gerente de desenvolvimento da economia criativa do Sebrae RJ e coordenadora do Estrombo, o projeto visa também abrir o mercado com a criação de circuitos e festivais de música. “Nossa meta é aumentar a formalização e o profissionalismo no setor.”
Segundo Heliana, esse mercado foi o que mais sofreu transformações nos últimos anos em decorrência das novas formas de consumo e distribuição. Até pouco tempo, o setor era regido unicamente pelas grandes gravadoras que realizavam todo o processo de contratação, divulgação na mídia e desenvolvimento. “Esse modelo ruiu completamente, porque tanto as formas de produzir como comercializar agora são outras. A internet foi um divisor de águas”, assinala.
Reestruturação do mercado
Diante desse cenário, em que seus atores começam a buscar saídas, a gerente do Sebrae acredita que o projeto tem muito a contribuir. “Ele traz ferramentas inovadoras. Partimos do princípio de que, apesar da crise, há uma intensa qualidade artística e um grande potencial no estado fluminense.”
Para Carlos Mills, vice-presidente da ABMI – entidade presente em dez estados brasileiros e com 106 gravadoras associadas –, uma saída para fortalecer o mercado fonográfico é elaborar novos modelos de negócios ligados à web 2.0. “Tornar a atividade musical mais remunerada nesses meios digitais é um dos objetivos.”
Apesar de acreditar no fortalecimento da indústria fonográfica, o diretor da Mills Records entende que sua reestruturação é complexa. Para ele, existem outras questões mais abrangentes, como interesses empresariais e prioridades individuais. “Esse processo envolve ainda políticas públicas de cultura, órgãos estatais, sindicatos, a Ordem dos Músicos, além, é claro, da força de vontade de cada um.”
Educação do consumo
Para Heliana, o Estrombo é também uma oportunidade para a discussão de questões relacionadas ao consumo de música. Durante o projeto, uma reeducação em relação ao download de faixas – muitas vezes realizado de forma ilegal – poderá ser discutida. “Esse é um ponto nevrálgico. Não podemos ajustar o mercado e só depois as práticas de consumo.”
Para a gerente do Sebrae, uma das molas propulsoras para o projeto existir é o fato de que é possível disponibilizar qualquer coisa na internet. O ponto crítico, segundo ela, é que os consumidores ainda não aprenderam a lidar com essas questões. “As pessoas precisam entender que as músicas que estão na internet têm um custo. Há profissionais do outro lado que vivem daquilo”, analisa a gerente.
Carlos Mills vê com bons olhos essas iniciativas educativas. Ele acredita que já existe uma tendência natural do consumidor em compreender que as pessoas que trabalham na produção de conteúdos devem ser recompensadas. “Segundo artigo do jornal ‘The New York Times’, uma pesquisa mostrou que 85% dos entrevistados concordavam que os compositores deveriam ser remunerados”. Ao mesmo tempo, para ele, a filosofia do gratuito precisa ser repensada. “Ela não precisa deixar de existir, mas ser sustentável. Esses conteúdos custam para ser produzidos.”
O sucesso do iTunes nos EUA, como bem lembrou Carlos, é uma prova de que as pessoas estão dispostas a pagar, desde que de forma simples e por um preço justo. “Talvez, devido às questões tributárias e burocráticas, o Brasil ainda encontre resistência para aderir a esses formatos e uma loja virtual como o iTunes se depare com dificuldades para se firmar no país.”
Fonte: Nos da Comunicação - André Bürger